O Patriarca de Juazeiro Imprimir E-mail

 

 

O PATRIARCA DE JUAZEIRO

 

Padre Azarias Sobreira

 

 

Quem quer que se propôs, até hoje, estudar a figura do Patriarca de Juazeiro, viu-se embaraçado entre os hosanas populares e o tom reticente e suspicaz das classes pensantes.

 

Como quase todos os de minha geração que perto dele abriram os olhos, comecei por venerá-lo desmesuradamente. Menino ingênuo e, como tal, amigo do maravilhoso, descobri nele, até aos quatorze anos, a expressão máxima da virtude cristã de que fosse capaz um mortal. — Página 12.

 

Seu Padre Cícero fala com Deus, — confiava-me, convencido, um colega de escola, o Augusto, que não era menino leviano. — Fique sabendo que ele fala com Deus, da mesma forma que eu estou lhe falando. Na terra toda, há dois padres santos: o Papa em Roma e o Padre Cícero em Juazeiro. — Página 14.

 

Vocês vivem muito enganados com esse padre, — proclamava, a meia voz, do alpendre da sua casa de sítio, o major Rocha, velho conterrâneo, desabusado e livre-pensador. O Padre Cícero começou missionário, vai ficando milionário e acabará revolucionário. Aquela bondade não é mais nem menos que um jeito especial de pegar gente para o próprio partido. Quando se sentir bem forte, o estouro será medonho, e triste de quem morar aqui. — Página 14.

 

A todas essas vozes dissonantes, o Padre Cícero se conservava sistematicamente alheio. Nem procurava os contraditores, a título de reconciliação ou ajuste de contas; nem deles fazia menção, salvo de longe em longe, e sempre em tom displicente. Dir-se-ia que, em lugar de aborrecê-los, comprazia-se em conservá-los perto de si. — Páginas 14-5.

 

Se acrescentarmos que, no Juazeiro de outrora, como em toda parte, havia também uma boa percentagem de pessoas indiferentes, que não se pronunciavam sobre o caso religioso da terra, mas viam no velho sacerdote um elemento benfazejo, terei enumerado os diversos naipes em que se dividia a opinião pública urbana, nos tempos de minha infância.

 

Pode-se afirmar, entretanto, que setenta por cento da localidade tinham-no em grande conta e lhe obedeciam como a um pai das eras bíblicas. — P. 15.

 

Chegou, porém, a adolescência e instintivamente comecei a enxergar o universo sob prismas impressionados e deslumbrantes. A razão passou a pedir-me contas de minhas crenças e, dentro em pouco, secundado pelo ambiente de colégio, não raro zombeteiro e irreverente, atirou fora, desdenhosamente, muita coisa querida que me embalara a imaginação.

 

Na correnteza fatal desapareceu, não sem dor n'alma, o primitivo conceito do capelão de minha terra. Houve, todavia, um, entre outros fatores, que paulatinamente decidiu da modificação dos meus sentimentos de hostilidade.

 

É o que vai ser objeto das páginas deste livro. — Página 15.

 

Têm-se-lhe incriminado, como indício de megalomania ou vaidade um tanto patológica, dois telegramas que, em diversas oportunidades, endereçou ora ao Imperador Francisco José, da Áustria-Hungria, ora ao Czar, da Rússia, sugerindo-lhes providências diplomáticas em favor de povos indefesos, cuja sorte lhe inspirava profunda compaixão, enchendo manchetes da imprensa internacional.

 

Pelo que me toca, a mim, que procurei entrever-lhe os propósitos e perscrutar as próprias raízes de seus pronunciamentos, nada disto me causa estranheza.

 

É que o Patriarca de Juazeiro, na sua otimista concepção da humanidade, não via, efetivamente, cabeças coroadas nem mesmo infiéis ressumantes de ódio ao cristianismo. — Página 66.

Última atualização ( Sex, 02 de Maio de 2008 20:59 )
 

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